sábado, 5 de fevereiro de 2011

Desmerecimento (2006) - 15 anos

Cheguei em "outro mundo". Para aquelas singelas crianças, um assunto rotineiro: carvoaria. Vida monótona e exercida com um sacrifício explorador. Olhei aqueles rostinhos, meus olhos transbordaram-se em lágrimas de um mundo cinza e injusto. Expressões e impressões invadiram meu coração. Vi em seus olhares algo além da tristeza. Necessitavam de amor verdadeiro, carinho e atenção. Disseram-me ter medo dos mais velhos, que os batiam caso opinassem. Compartilhei com eles um dia de misérias e fortes descobertas. As crianças dão um valor enorme a cada farelo de pão que ganham, a cada sorriso que lhes dão, a cada gesto carinhoso, enfim, a tudo o que, para nós, é comum.
Perguntei o sonho de cada uma daquelas enfraquecidas meninas. Obtive como resposta: "Gostaria de ser você, pois aí seria feliz." Minha voz travou em minha garganta dolorida de tanto nervosismo. O sonho daquela criança simplesmente me assustou.
A menina veio correndo em minha direção, me deu um abraço tão forte, mas tão forte e tão sincero que abaixei-me e disse para ela sempre lutar, vencer, estudar e ter uma profissão para sair daquela vida a qual pertencia. Recebi outro abraço.
A partir daquele dia amadureci e realmente comecei a dar valor a vida que levava.
Sete meses e meio depois, ao ligar a televisão, deparei-me com uma horrenda notícia: morte por doença pulmonar de uma criança carvoeira de Minas Gerais. Mostraram a foto. Era a menina que me abraçou. Não acreditei naquilo, não podia acreditar. Pensei ser um pesadelo. Não podia me conformar com a semelhança no tratamento entre crianças e animais.